sábado, 14 de maio de 2022

CONTO: O Pássaro Que Queria Voar

— Lua! Lua! 
Abri as asas para me despreguiçar e olhei para baixo. Era Ellie, a pequena coelhinha cinza e ao seu lado estava Lu, o coelhinho branco, Laya, a arara e Joy, a pequena oncinha que andava com os amigos.
— Ora ora, o que temos aqui. — Murmurei quando vi Joy — Sua mãe sabe que anda brincando com a comida?
— Por que ela deveria saber? — Replicou a pequena onça sentando-se na areia.
— Ei! — Protestou Lu — Para de lembra-la que somos a comida!
— Ok... Ok. — Murmurei. — O que querem na minha árvore?
— Queremos que nos conte uma história. 
— Disse Laya tímida. 
— Outra vez? — Questionei e quando todos balançaram a cabeça em concordância, soltei um suspiro resignado. Eles não iriam sair dali enquanto eu não contasse a história. Olhei para o céu e vi que logo a noite cairia. 
O que contar? 
Meus olhos pousaram no pássaro de plumagem negra orlada de branco na testa e na garganta, e uma larga área negra no peito que pegava o peixe com seu bico, que ia do vermelho ao negro na ponta. Do topo da cabeça e lados do pescoço até o dorso era marrom e as escápulas era cor de bronze. 
Olhar aquele pequeno pássaro me fez lembrar de um amigo que eu não via há algum tempo.
— Já sei que história contar. — Falei ao voltar a minha atenção para os filhotes que estavam a minha espera.
— Qual o título?
 — O título é o pássaro que queria voar — Respondi ao abrir as asas e voar para um galho mais baixo para ficar mais próximo dos que iam me ouvir — Era uma vez ... — Interrompi quando pensei que aquela história não deveria começar com era uma vez — Todos os contos de fadas sempre começam com "era uma vez", mas essa história não é um conto de fadas e ela começará de uma forma diferente.
— Diferente? — Interrompeu Lu
— Ela começará com: Próximo a um bosque...


I
Próximo ao bosque estava o mar onde as ondas batiam furiosas contra as pedras. Às vezes ela era apenas a calmaria que atraia a atenção de quem passasse por ali.
Era o lugar perfeito para os apaixonados. 
Era o que mamãe sempre dizia quando olhava para o imenso mar que estava em sua frente. E pelo que estava percebendo, era o lugar perfeito para Iza e Carl, os novos vizinhos que tinham acabados de se mudar para ali.
— Mamãe temos novos vizinhos! — Disse apontando para a areia arenosa onde o casal arrumavam os gravetos na pequena depressão no solo em um formato mais ou menos circular. 
— O que eles estão fazendo?
— Um ninho.
— Um ninho? — Repeti ao voltar a atenção para o que estava se desenrolando na minha frente — Então isso significa que logo terei um novo amiguinho.
— Sim minha pequena Lua — Concordou Luja, a coruja, ao empurrar a pequena filhote para baixo de suas asas.



II

O vento soprou, fazendo com que o penacho fino preto que ficava na região posterior de sua cabeça balançasse.
Mesmo assim seus olhos vermelhos estavam atentos a qualquer movimento que significasse ameaça para o ninho. 
— Bom dia... — Saudou Carl quando viu que Iza tinha acordado. — Dormiu bem?
— Sim. — Respondeu ao abrir as asas. As penas externas das asas tinham o tom marrom junto ao corpo, terminando em um azul-escuro quase negro. Por dentro as asas são brancas com extremidades do mesmo tom escuro.
— Nossos filhotes estão bem?
— Sim. — Respondeu ao se inclinar para verificar os ovos em formatos de pera esverdeados e pintinhas pretas.
— Mas está preocupada.
— Sim... Jena perdeu os dela — Lembrou a com preocupação. 
— Aqui nós estamos seguros. — Disse Carl ao passar o bico no alto da cabeça de Iza.
Mesmo que tivesse receio, Iza decidiu confiar no parceiro de que ambos estariam seguros ali. Foi então que seus olhos foram em direção as árvores, mais precisamente para onde eu estava.
E desejei saber o que tanto a preocupava.



III

— Vamos Lua! — Incentivou-me mamãe — Você consegue!
— Mas mamãe.... — Protestei ao olhar para baixo e recuei para dentro do ninho quando vi a altura — Eu não consigo.
— Consegue.
— E se eu cair?
— Te pegarei. — Prometeu-me mamãe — Abra as asas... sinta o vento.
Era realmente maravilhoso. Sentir o vento batendo entre as penas e parecia até mesmo que ela estava me convidando a saltar. Então saltei.
— Bata as asas... — Instruiu mamãe logo atrás de mim — Isso.... Você conseguiu minha pequena Lua!
— Consegui! Uhuuu!! — Comemorei feliz e foi então que meus olhos foram em direção aos vizinhos e antes que eu pudesse pensar direcionei meu voou para eles.
Bati as asas e olhei para a areia. Minha aterrissagem não foi boa pois tropecei e sai rolando na areia e parei quase perto do ninho.
— Ops...
— O que você quer? — Questionou Carl ao parar em frente ao ninho em posição de ataque — Se quiser pegar meus filhotes vai ter que passar por mim...
Eu não queria pegar filhote de ninguém.... — Era isso o que eu queria dizer, mas estava assustada de mais para pronunciar uma só palavra. 
Recuei alguns passos quando ele veio em minha direção mostrando os esporões e olhei em direção ao céu torcendo para que minha mãe sentisse logo a minha falta.
— Acalma-se querido, é apenas um filhote. —  Pediu Iza e voltou a atenção para mim — Você está bem?
— S... Sim... — Gaguejei e olhei em sua direção com desconfiança.
— Primeiro voo?
— Como sabia? — Questionei e Iza apontou o rastro na areia que eu tinha feito ao rolar — Oh.... Isso.
— Lua! — Gritou-me mamãe ao pousar ao meu lado. — Você está bem?
— Sim.
— Você não devia ter vindo para cá. — Repreendeu-me mamãe — E se tivesse os atingidos? 
— Eu... Eu...
— Tudo bem. — Interferiu Iza com pena.
— Tudo bem nada. — Protestou Carl — Ela poderia ter matado nossos filhotes!
— Querido. — Interferiu Iza e nesse exato momento um som chamou a atenção dos quatros que estavam ali.
Crack!
Alerta e eufórica, Iza moveu-se no ninho para olhar o ovo e viu, para a sua alegria, que ele tinha uma pequena rachadura.  
— Está nascendo! — Exclamei batendo as asas, contente.
Pacientemente, ela esperou que o filhote sair do ovo. Lentamente a pequena rachadura foi crescendo e então a pequena cabecinha surgiu para fora do ovo.
— Como vamos chamá-lo? — Questionou Carl quando o pequeno saiu do ovo.
—  Como você acha que ele deveria se chamar? — Questionou Iza olhando para mim.
Com espanto, voltei minha atenção para o pequeno filhote que a penugem esparsa cinza-escuro com algumas pintas negras.
— Volaralto. 
— Volaralto? — Repetiu Carl achando o nome estranho e voltou a olhar para o pequeno filhote. Ele estava prestes a dizer que não colocaria esse nome quando Iza o interrompeu.
— Volaralto é perfeito para ele. 
O que Carl e Iza jamais poderia imaginar é que Volaralto queria dizer voar alto. E era isso o que eu desejava.
Que ele um dia voltasse alto.